| REGIONAL ABC |

Autor de uma obra incomumente extensa e variada, que consta sobretudo de
crônicas e contos humorísticos, Humberto de Campos foi um dos autores mais
populares em sua época, principalmente por sua assídua atuação na imprensa.
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (atual Humberto de Campos) MA em 25
de outubro de 1886. Aprendiz de tipógrafo e depois escriturário, em 1908
lançou-se no jornalismo em Belém PA e chegou a diretor de A Província do Pará.
Fatores políticos forçaram-no a mudar-se em 1912 para o Rio de Janeiro RJ, onde
passou a trabalhar como redator de O Imparcial. A longa série de seus livros de
prosa iniciou-se com Da seara de Booz (1918). Publicou depois, entre outros, A
serpente de bronze (1921), A bacia de Pilatos (1924), O monstro e outros contos
(1932).
Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1920, foi eleito deputado federal
pelo Maranhão em 1927, mas teve o mandato interrompido pela revolução de 1930.
Suas Memórias (1933) são apontadas como seu livro mais importante e do mesmo
ano são as Poesias completas. Seu Diário secreto, publicado postumamente em
1954, causou escândalo. Humberto de Campos morreu no Rio de Janeiro RJ em 5 de
dezembro de 1934.
Antologia
Um amigo de infância-- Mamãe, olhe o que eu achei! -- grito, contente, sustendo na concha das
mãos curtas e ásperas o mostrengo que ainda sonhava com o sol e com a vida.
-- Planta, meu filho... Vai plantar... Planta no fundo do quintal, longe da
cerca...
Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva. A trinta ou quarenta metros da
casa, estaco. Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projeto de
árvore, cerco-o de pedaços de tijolo e telha. Rego-o. Protejo-o contra a fome
dos pintos e a irreverência das galinhas. Todas as manhãs, ao lavar o rosto, é
sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre. Acompanho com afeto a
multiplicação das suas folhas tenras. Vejo-as mudar de cor, na evolução natural
da clorofila. E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde e móbil, a
agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa
que lhe dou.
O meu cajueiro sobe, desenvolve-se, prospera. Eu cresço, mas ele cresce mais
rapidamente do que eu. Passado um ano, estamos do mesmo tamanho. Perfilamo-nos
um junto do outro, para ver qual é mais alto. É uma árvore adolescente,
elegante, graciosa. Quando eu completo doze anos, ele já me sustenta nos seus
primeiros galhos. Mais uns meses e vou subindo, experimentando a sua
resistência. Ele se balança comigo como um gigante jovem que embalasse nos
braços a seu irmão de leite. Até que, um dia, seguro da sua rijeza hercúlea,
não o deixo mais. Promovo-o a mastro do meu navio e, todas as tardes, lhe subo
ao galho mais empinado, onde, com o braço esquerdo cingindo o caule forte, de
pé, solto, alto e sonoro, o canto melancólico da chegança, que é, por esse tempo,
a festa popular mais famosa de Parnaíba:
Assobe, assobe, gajeiro,
Naquele tope real...
Para ver se tu avistas,
Otolina,
Areias de Portugal!
Mão direita aberta sobre os olhos, como quem devassa o horizonte equóreo, mas
devassando, na verdade, apenas os quintais vizinhos, as vacas do curral de D.
Páscoa e os jumentos do Sr. Antônio Santeiro, eu próprio respondo, com minha
voz gritada, que a ventania arrasta para longe, rasgando-a, como uma camisa de
som, nas palmas dos coqueiros e nas estacas das cercas velhas, enfeitadas de
melão-são-caetano:
Alvíssaras meu capitão,
Meu capitão-general!
Que avistei terras de Espanha,
Otolina.
Areias de Portugal!
A memória fresca, e límpida, reproduz, uma a uma, fielmente, todas as passagens
épicas, todas as canções melancólicas e singelas da velha lenda marítima com
que o majestoso mulato Benedito Guariba, uma vez por ano, à frente dos seus
caboclos improvisados em marujos portugueses, alvoroça as ruas arenosas de
Parnaíba. O vento forte, vindo das bandas da Amarração, dá-me a impressão de
brisa do oceano largo. O meu camisão branco, de menino da roça, paneja,
estalando, como uma bandeira solta. O cajueiro novo, oscilando comigo, dá-me a
sensação de um mastro erguido nas ondas. E eu, sugestionado pela imaginação,
via -- eu via! -- as vagas rolando diante de mim, na curva do horizonte, onde o
céu e o mar se beijam e misturam, as terras claras de Espanha, e areias de
Portugal.
Pouco a pouco, a noite vem descendo. Um véu de cinza envolve docemente os
coqueiros dos quintais próximos. Os bezerros de D. Páscoa berram com mais
tristeza. As vacas, apartadas deles, respondem com mais saudade. Os jumentos do
Sr. Antônio Santeiro zurram as cinco vogais e o estribilho "ípsilon",
marcando sonoramente as seis horas. Os do Sr. Antônio do Monte, ao longe,
conferem e confirmam o zurro, o focinho para o alto, olhando o milho de ouro
das primeiras estrelas. E eu, gajeiro de uma nau ancorada na terra, desço
tristemente do folhudo mastro do meu cajueiro, sonhando com o oceano alto,
invejando a vida tormentosa dos marinheiros perdidos, que não tinham, pelo
menos, a obrigação de estudar, à luz de um lampião de querosene, a lição do dia
seguinte...
Aos treze anos da minha idade, e três da sua, separamo-nos, o meu cajueiro e
eu. Embarco para o Maranhão, e ele fica. Na hora, porém, de deixar a casa, vou
levar-lhe o meu adeus. Abraçando-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu
peito. A resina transparente e cheirosa corre-lhe do caule ferido. Na ponta dos
ramos mais altos abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas como
pequeninas unhas de crianças com frio.
-- Adeus, meu cajueiro! Até à volta!
Ele não diz nada, e eu me vou embora.
Da esquina da rua, olho ainda, por cima da cerca, a sua folha mais alta,
pequenino lenço verde agitado em despedida. E estou em São Luís, homem-menino,
lutando pela vida, enrijando o corpo no trabalho bruto e fortalecendo a alma no
sofrimento, quando recebo uma comprida lata de folha acompanhando uma carta de
minha mãe: "Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju, em calda.
São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda
lembranças..."
Há, se bem me lembro, uns versos de Kipling, em que o oceano, o vento e a
floresta palestram e blasfemam. E o mais desgraçado dos três é a floresta,
porque, enquanto as ondas e as rajadas percorrem terras e costas, ela,
agrilhoada ao solo com as raízes das árvores, braceja, grita, esgrime com os
galhos furiosos, e não pode fugir, nem viajar... Recebendo a carta de minha
mãe, choro, sozinho. Choro, pela delicadeza da sua idéia. E choro, sobretudo,
com inveja do meu cajueiro. Por que não tivera eu, também, raízes como ele,
para me não afastar nunca, jamais, do quintal em que havíamos crescido juntos,
da terra em que eu, ignorando que o era, havia sido feliz?
Volto, porém. O meu cajueiro estende, agora, os braços, na ânsia cristã de dar
sombra a tudo. A resina corre-lhe do tronco, mas ele se embala, contente, à
música dos mesmos ventos amigos. Os seus galhos mais baixos formam cadeiras que
oferece às crianças. Tem flores para os insetos faiscantes e frutos de ouro
pálido para as pipiras cinzentas. É um cajueiro moço, e robusto. Está em toda a
força e em toda a glória ingênua da sua existência vegetal.
Um ano mais, e parto novamente. Outra despedida: outro adeus mais surdo, e mais
triste:
-- Adeus, meu cajueiro!
O mundo toma-me nos seus braços titânicos, arrepiados de espinhos. Diverte-se
comigo como a filha do rei de Brobdingnag com a fragilidade do capitão
Gulliver. O monstro maltrata-me, fere-me, tortura-me. E eu, quase morto,
regresso a Parnaíba, volto a ver minha casa, e a rever o meu amigo.
-- Meu cajueiro, aqui estou!
Mas ele não me conhece mais. Eu estou homem; ele está velho. A enfermidade
cava-me o rosto, altera-me a fisionomia, modifica-me o tom da voz. Ele está
imenso e escuro. Os seus galhos abraçam coqueiros, afogam laranjeiras que
noivam, ou ultrapassam a cerca e vão dar sombra, na rua, às cabras cansadas,
aos mendigos sem pouso, às galinhas sem dono... Quero abraçá-lo, e já não
posso. Em torno ao seu tronco fizeram um cercado estreito. No cercado imundo,
mergulhado na lama, ressona um porco... Ao perfume suave da flor, ao cheiro
agreste do fruto, sucederam, embaixo, a vasa e a podridão!
-- Adeus, meu cajueiro!